polishing

Este post é sobre ticos

ATENÇÃO: este post contém nudez leve de homens e mulheres, e pode botar em cheque sua masculinidade. Se você teme mudar de orientação sexual, nem lê. Estamos falando praticamente do kit gay, tá ok?

Que videogame sexualiza tudo que remotamente pareça ter uma vagina, a gente já está careca de saber. Tem um trilhão de posts e artigos e vídeos sobre o assunto. Tu chuta uma moita e cai cinquenta fanart de qualquer personagem feminino com os peitos de fora. Tem um panteão inteiro que vive de coxa e bunda. A norma pra mulher em videogame é ser gostosa. Quem não é, é exceção. A pergunta de hoje é no mesmo tema mas por outro viés: onde estão os homens gostosos em jogos ocidentais? Cadê?

“Ai, mas tem vários, Diogo!”. Já vi que vamos ter que esclarecer algumas coisas. Especialmente porque tu que tá lendo deve ser homem. Hétero. Tu não sabe nada de tico, cara. Mas vai ter aula hoje, então anota aí.

Kratos e o Bonde dos Careca

Os primeiros dedos em riste que levantam pra apontar pra um personagem masculino sexualizado sempre apontam pro Kratos de God of War. Acontece o seguinte:

O Kratos não é sexualizado, é uma fantasia de poder.

Não que tu não possa sentir tesão no Kratos. O ponto é que ele não foi idealizado com isso em mente. Ele foi planejado para dar ao jogador a sensação de agência e poder. Ele é musculoso porque ele é forte para estraçalhar seus inimigos. Ele fode muito e todos reconhecem ele como atraente no jogo porque sexo é apenas mais um domínio no qual Kratos pode exercer sua vontade como quiser. É um avatar para dar ao jogador a possibilidade de extravasar a vontade de controle absoluto em todas as esferas que ele gostaria de ter na vida real. O sonho molhado de um garotinho é acordar um dia e ser o Kratos.

C H A T U B A C O M E C U

Reparem na pose dele. Ele te parece sensual? Não. Ele parece ameaçador

A gente pode até confundir essas coisas por um processo de quase lavagem cerebral que nós como sociedade passamos. Inclusive, Susan Bordo fala em “The Male Body” sobre o uso desse tipo de pose estática ou agressiva que foi por muito tempo usada na publicidade:

Muitos modelos encaram o observador friamente, desafiando-o a vê-los de qualquer outra forma que não aquela na qual eles escolheram se apresentar: como poderosos, blindados, emocionalmente impenetráveis.

Frequentemente, o pênis está em destaque, mas sua presença é marcial ao invés de sensual.

Em geral, esses anúncios retratam o que eu descreveria como “masculinidade de enfrentamento”, na qual a vitória vai para o concorrente dominante em um duelo de vontades. Quem vai ganhar a encarada? Quem vai desviar o olhar primeiro? O olhar de quem vai ser triunfante?

Em contraponto isso foi aos poucos sendo substituído por outras poses, que retratam menos tensão – tanto muscular quanto na postura -, que conforme descrito pela mesma autora, conferem um grau de dinamismo que permite ao observador imaginar o sujeito em movimento (fazendo o quê, será?):

“Deleite-se em mim, estou aqui para ser olhado, meu corpo é para os seus olhos” – Ainda a mesma autora descrevendo essa alternativa de pose.

Entre essa e a imagem do Kratos, começa a ficar um pouco mais clara a diferença? Claro que há nuances nessa história toda. Galera curte uma sacanagem embutida, que não deixa de ter um quê de intimidação. O anuncio da Calvin Klein do Mark Walbherg pegando no peru tem um quê de enfrentamento também mas o Kratos em si é literalmente o avatar da ira e do poder. Ele está em um dos extremos desse gradiente, e isso o distancia de uma possibilidade de sexualização, que alias poderia dar mais profundidade ao personagem.

Como assim profundidade, Diogo? Tu começa falando de pinto e agora vai falar de profundidade? Vou porque estou querendo chegar em um ponto. Aponta esse lápis.

Sexualizando Certo

Agora que já passamos pela diferença entre sexualização e fantasia de poder, tem uma zona cinza aí no meio onde o negócio começa a ficar divertido: quando sexualização faz sentido no personagem. A Evelynn, do League of Legends, é um baita exemplo. A Evelynn é um demônio que gosta de infligir dor . Não só o lore, as habilidades dela no jogo refletem esse uso da sensualidade como arma também. Para o conjunto do personagem, ela ser sexualizada e se aproveitar disso para atingir seus objetivos faz todo o sentido. Poderia-se dizer que funciona porque a sexualização da Evelynn faz parte da sua fantasia de poder, mas não é a sua única parte constituinte. Guardem essa idéia.

ii, mis diogi, issi n é o dante do DMC originil. É O MESMO PERSONAGEM, PORRA.

O Dante é filho de um demônio, praticamente imortal, não dá bola pra muita coisa, e por conta disso a confiança dele é raramente abalada, ao ponto que ele se sente plenamente confortável de fazer piada (muitas vezes de duplo sentido) em situações letais. O jogo nunca apresenta ele usando do seu poder pra obter vantagem sexual ou dá a entender que ele vai comer alguém, como é o caso do Kratos. Se ele fosse sensual, sim, isso seria raso, barato, bobo, infantil. Acontece que esse é exatamente o padrão com a maioria das personagens femininas.

Não é tão difícil

Rola direto um papo de que “ai, fazer um personagem que pareça sexualizado para mulheres é muito difícil porque mulheres são seres muito complexos, onde a sexualidade vem de um enorme espectro de fatores, dos mais sutis”. Negativo. É possível que os fatores que aumentem libido sejam diferentes. É um detalhezinho importante nessa discussão, que chama contexto. Pra homens serem retratados sensualmente, contexto é crucial. Um roteirista bom aqui é indispensável, e é o que os designers de personagem negligenciam o tempo todo.

Contexto é o que distancia um personagem bonito de um personagem tesudo.

Nessa lacuna cabe um MAR de oportunidades perdidas; personagens que por mera falta de investimento no quesito contexto, falham em atravessar esse vale.

Conheço uma galera que diria que o Nathan Drake de Uncharted é bonito, mas quase ninguém que tenha tara nele.

Por que será que personagens masculinos sexualizados ocorrem tão pouco então? Eu tenho palpites fortes.

  1. Masculinidade Frágil. O pessoal tem medo de olhar pra corpo de homem e do tico cair. Ainda tem muito homem que acha incompatível ser heterossexual e poder olhar pra um homem e admitir que o cara é bonito, quiçá gostoso.
  2. Representatividade nas equipes de desenvolvimento. Desenvolvimento de jogos é uma área predominantemente populada por homens. Homens hétero. Homens hétero com masculinidade frágil. Isso explicaria bastante eles resistirem conferir traços sexualizados aos personagens que eles conceitualizam. Muito cara não sabe, nem faz questão de saber (por que isso é coisa de viado, taokei?), o que torna homens atraentes nos olhos das mulheres, O QUE CONVENHAMOS É UMA IRONIA DO CACETE PELO AMOR DE DEUS.

A própria Blizzard que tentou puxar uma vanguarda anunciando personagem não-hétero, não põe nenhuma bunda em nenhum dos personagens masculinos de Overwatch. E os que até tem eles dão um jeito de esconder atrás de paninho, espadinha, item, cinto, o que seja. Porque Deus o livre aparecer uma bunda de homem no meu jogo.

Eu fiz essa imagem. Apreciem.

Mas aí na primeira chance, PÁ:

ATÉ NA ROBÔ TEM UMA MARCA DE BUNDA. PUTA QUE PARIU.

Não apenas isso, em geral o foco da câmera não segue o male gaze – quando a câmera prioriza os pontos de interesse que um homem priorizaria – como é comum com inúmeros personagens femininos . O jogo de câmera não incentiva o jogador/espectador a observar o corpo, postura, atitude e contexto no qual o homem poderia ser atraente. Mostrar braços, ombros, peito, bunda, coxas de homem em close são coisas que simplesmente não acontecem. Seria uma mudança muito simples, que poderia acrescentar uma dimensão a mais em personagens, e melhorar um pouco a proporção entre homens e mulheres sensuais em videogames.

Pra fins de comparação, reparem nessas duas sequências do Heavy Rain e como a representação é totalmente diferente:

Fora que QUE MULHER TOMA BANHO ASSIM?

TICOS

Sexualização não é inerentemente ruim. Há casos em que faz sentido sexualizar um personagem. O que estamos contestando é a proporção entre personagens femininos e masculinos sexualizados que aparecem nos videogames. Não estamos dizendo que de agora em diante todos os personagens masculinos deveriam ser sexualizados (deus me livre, mas quem me dera), mas não custava dar de presente um carinha gostoso pra quem gosta quando isso colabora com a narrativa do jogo, né?

Evocar emoções é central ao trabalho de um game designer, e ter sexualidade na paleta de emoções é uma ferramenta poderosa. Faz parte de um repertório simbólico que dá acesso a pessoas ao fascínio pelo videogame através de sentimentos que mexem mais facilmente com parte de um público.

Há quem vai dizer que isso não acontece por causa do mercado, porque mulher sexualizada vende, e homem sexualizado gera constrangimento e não vende. Notícia pros senhores: crack vende, mas suco de romã não. Não é porque vende que é bom e/ou tá certo. Não adianta querer dar uma justificativa de mercado pra uma questão de sociedade. A gente SABE por que acontece e continua acontecendo. A gente tá especulando o que a gente pode fazer pra acontecer diferente. Inclusive, no departamento de constrangimento entra bunda de homem mas não entra minigame de estupro? Por favor, né.

Incrivelmente, quem acaba fazendo personagens homens sexualizados relativamente bem é o Japão, do auge do seu conservadorismo, mas ao mesmo tempo, sentado no trono do pornô de tentáculos. Parabéns pra quem faz direito.


Bônus:

Imagem por Giselle Almeida, e uma inversão linda do que a gente costuma ver no universo de jogos. Visitem o portfolio dela, ela é foda demais!

 

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