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Antropofajogos

No auge dos meus 16 anos, em 2005, eu tive o prazer de ir à primeira edição do Video Games Live no Rio de Janeiro. Pode parecer minúsculo hoje, com eventos de jogos ganhando cada vez mais espaço e porte, mas na época era dos primeiros eventos orientado aos fãs com cara de profissional, acontecendo em uma casa de shows de verdade com patrocínio de empresas grandes, ao invés de ter aquela vibe de amadorismo de eventos nerds acontecendo em colégios e universidades.

As luzes apagaram e o nosso anfitrião pela tarde, Tommy Tallarico – compositor da trilha de um dos meus jogos favoritos de todos os tempos, Earthworm Jim -, nos recebeu com um discurso fantástico: Jogos são arte e estamos aqui pra provar isso. Que homão ousado da porra.

Performance atrás de performance fantástica, a Orquestra Sinfônica da Petrobras prosseguiu pra executar clássicos de vários dos nossos títulos favoritos, sempre com uma introdução do Tommy ou até um vídeo com o compositor original falando sobre os desafios e sua visão artística para a trilha. Na plateia, alguns pais assistiam estupefatos e comentavam: “Caramba, parece música clássica mesmo.”.

Num dos intervalos Tommy sobe no palco e começa a falar sobre a próxima música que será tocada. Ele fala sobre como ela havia sido uma conquista para os jogos, por ter sido a primeira música de um videogame a ganhar um prêmio internacionalmente renomado, e sobre como ele e o compositor gostariam de agradecer especialmente aos brasileiros por nossa música nacional ter sido tão influente na composição daquela peça. As luzes se apagaram e o salão ficou em silêncio.

E aí começa um batuque com um cara cantando em swahili.

A música em questão era a lindíssima Baba Yetu, composta pelo Cristopher Tin, tema de Civilization IV e primeira música de videogame a ser indicada e ganhar um prêmio Grammy.

Profundamente inspirada em música gospel africana.

Esse cara, um compositor internacionalmente renomado, com uma missão importante de fazer jogos serem levados a sério por não jogadores, sobe num palco no Rio de Janeiro e tem a pachorra de falar pra uma plateia cheia de brasileiros que a nossa música tradicional é gospel africana. Puta merda.

Aquele foi o momento no qual foi plantada uma sementinha na minha cabeça, que foi crescendo conforme estudei artes e desenvolvimento de jogos. A profunda e sóbria constatação de que as pessoas raramente sabem como é o Brasil fora do Brasil. O que me leva a crer que, por uma série de fatores e nem todos culpa nossa, nossa identidade cultural raramente alcança os estrangeiros.

Isso nos leva a um assunto que já abordei em outros carnavais, mas acredito que ainda seja pauta quente: existe uma identidade cultural brasileira nos jogos?

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Porra, Ubisoft…

Com o crescimento, por mais tímido que seja, da indústria brasileira de desenvolvimento de jogos eletrônicos a tendência é que essa discussão se torne cada vez mais importante. Por esses e outros motivos que é importante que ninguém se aproxime dela como um babaca que acha que é o dono da verdade e fique dando prescrições. Essa discussão é campo de opiniões diversas e não tem resposta certa. O exercício de refletir sobre isso é mais importante do que as respostas que isso pode vir a trazer.

Com isso em mente, aqui estão as únicas maneiras corretas de fazer o seu jogo ser verdadeiramente brasileiro.

“Tupi or not Tupi”

Evidente que num país como o Brasil – ex-colônia, de escalas continentais e miscigenação de um sem número de povos e culturas – é muito, muito difícil delinear o que poderia ser considerado uma identidade cultural nacional. Durante muito tempo a nossa cultura foi uma colagem extensa e complexa de imposições dos nossos então senhores portugueses misturada com a bagunça sincrética e miscigenada que acontecia fora da Casa Grande. Antes de essa fase passar, já começamos também a ser assolados pelas noções civilizatórias europeias e, enfim, pelos tentáculos de cultura americana.

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Por essas e outras, vocês podem imaginar, esse debate não é novidade. Ele acontece tem muito tempo. Mais específicamente desde 1920 com a Semana de Arte Moderna de São Paulo, que deu inicio a um processo que durou décadas, de colocar o Brasil em busca de uma identidade cultural verdadeiramente nacional ao invés de ficar eternamente da sombra da dominação portuguesa. Foi desse berço que nasceu o Movimento Antropofágico, que propunha absorver toda a cultura do solo nacional – portuguesa, afro-descendente, tupiniquim – e ainda fagocitar o que estava acontecendo no eruditismo europeu. Daí o nome “antropofagia”, que significa literalmente “comer gente”.

Essa atitude de “antropofagia”, de agregar tudo que está a vista, voltou com força em 1960 na mais famosa Tropicália. Eles já não eram tão metidos ao eruditismo – reflexo, em parte, da maturidade do movimento Pop Art nos EUA -, então hoje em dia a gente sente um pouco mais o impacto deles. Foi nessa época que a MPB agregou instrumentos que eram considerado coisa de gringo, tipo o instrumento extremamente futurista e alienígena que era a guitarra elétrica – puta merda, né?

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“Mas e os jogos?” você pergunta, “o que tem a ver com essa coisa toda?”

Ora, se essa discussão já rolou antes e volta e meia em ambientes artísticos, porque não podemos aprender com ela e transplantar isso pros jogos eletrônicos?

Jogos e Ficção

Uma coisa importante da evolução da mídia dos jogos é que ela sempre esteve, especialmente a partir do momento que ela começou a evoluir como mídia narrativa, profundamente relacionada com habitar mundos fantásticos, absurdos, surreais e até abstratos. Isso se parece muito com o cinema, mas com a diferença que os jogos eletrônicos possuem o caráter indivisível de interatividade – ou seja, as suas escolhas, sejam elas musculares, estratégicas ou morais, tem impacto sobre o mundo do jogo.

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Quando falamos sobre “habitar universos fantásticos” é inevitável que pra maioria de nos a imagem imediata seja a de Senhor dos Anéis, mas a tônica aqui é a literatura de ficção. Em especial ficção popular – aqui sendo a tradução de genre fiction, “ficção de gênero”, que é um termo guarda-chuva pra fantasia, ficção-cientifica, horror e outros gêneros populares. Imagino que não seja segredo pra ninguém que ficção popular sempre foi considerada literatura de baixa qualidade técnica e moral no mundo dos eruditos.

Embora nossa literatura nacional seja rica em autores realistas, nós carecemos de obras de ficção fantástica nacionais populares no imaginário coletivo – seja por falta de volume de títulos quanto pelo fato de que a nós temos tendência a rejeitar produtos culturais nacionais com a nossa síndrome de vira-lata, consumindo uma fantasia européia. Isso faz com que os autores de ficção popular nacionais estejam presos entre uma academia que não os leva a sério e um mercado que se rejeita a comprá-los.

Por outro lado, embora os eruditos costumem rejeitar a literatura popular como fraca e desimportante, isso não quer dizer que nós precisemos responder com revanchismo. Isso seria péssimo não só porque a qualidade da nossa literatura popular cairia muito, mas porque ignoraríamos um movimento literário de ficção que, embora não exclusivo do Brasil, é tradicionalmente latino-americano: o realismo mágico.

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Vida de Pi? Não. Max e os Felinos de Moacyr Scliar. Chupa Hollywood.

O realismo mágico pontua uma literatura que seria do contrário realista com elementos de magia e superstição. Um que aparece como referência pra diversos jogos eletrônicos estrangeiros com alguma frequência é o argentino Jorge Luís Borges, mas também temos ótimos autores nacionais. Dias Gomes, Murilo Rubião, Moacyr Scliar e até algumas obras do nosso querido Machadão de Assis M1l Gr4u.

Embora esse gênero seja um pouco mais bem escrito erudito e, portanto, desafiador de se traduzir para o meio dos jogos eletrônicos, ele tem uma prosa muito melhor do que a prosa de bosta dos nossos autores de fantasia é um gênero riquíssimo de se explorar.

Bebop no meu Samba

Outra alternativa, sempre, é redefinirmos tudo de novo.

Se a literatura nacional nos parece muito assíncrona e elitista, os movimentos artísticos muito inacessíveis ou difíceis de traduzir, sempre nos resta reinventar tudo. Tal qual os antropofagistas nós podemos comer todo mundo aproveitar os aspectos interessantes do nosso passado e misturar com qualquer coisa mais que nos pareça bacana do mundo. A globalização já tá aí e alguns dos seus jogos favoritos provavelmente foram feitos em países em que você nem imagina.

Battlefield? Suécia. The Witcher? Polônia. Metro: Last Light? Ucrânia.

Tenho nos meus arquivos a foto que um amigo tirou de uma garrafa de 51 numa loja canadense. Eu já estou de saco cheio de comer kebab na rua.

Quer fazer um jogo brasileiro?

  1. Seja brasileiro;
  2. Faça um jogo;
  3. Não seja preguiçoso e vá mais longe do que só saci, carnaval, futebol e favela;
  4. Ou não vá; porquê não? São temas tão bons quanto qualquer outro. Mas se for entrar nessa seara, saia urgentemente do Monteiro Lobato, Sapucaí na Globo e Tropa de Elite.  Faz o seu dever de casa direito.

Caso contrário, uma dica pra você: lembra o papo sobre o Civilization IV?

Então, essa daqui é do Civilization V.

A moral é que se você não fizer o dever de casa, hora ou outra você vai competir com quem faz.

2 opiniões sobre “Antropofajogos”

  1. Eu só boto bebop no meu samba
    Quando Tio Sam tocar um tamborim
    Quando ele pegar
    No pandeiro e no zabumba.
    Quando ele aprender
    Que o samba não é rumba.
    Aí eu vou misturar
    Miami com Copacabana.
    Chiclete eu misturo com banana,
    E o meu samba vai ficar assim:

    Tururururururi bop-bebop-bebop
    Tururururururi bop-bebop-bebop
    Tururururururi bop-bebop-bebop
    Eu quero ver a confusão

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